Estrelas na base, Pirulão, Gerson e Mattheus sofrem para emplacar na Europa

    • Daniel Augusto Jr/Agência Corinthians

      Matheus Pereira, mais conhecido como Pirulão, estreou nos profissionais do Corinthians em 2015

      Matheus Pereira, mais conhecido como Pirulão, estreou nos profissionais do Corinthians em 2015

    Há muitas similaridades entre Matheus Pereira, 19, Gerson, 20, e Mattheus Oliveira, 23. Os três são jogadores de futebol, atuam como armadores e se destacaram ainda na base pelo talento na perna esquerda. Todos usaram a camisa 10 de grandes clubes brasileiros e acumularam convocações para seleções brasileiras amadoras. O estilo, o repertório técnico e a expectativa despertaram interesse de equipes da Europa, e o trio também tem em comum a transferência precoce para o Velho Continente. A lista de coincidências, contudo, termina com um elemento extremamente preocupante para eles: a dificuldade para dar o próximo passo na carreira.

    Pirulão em apuros na Itália

    A pior situação atualmente é a de Matheus Pereira, que na base do Corinthians recebeu o apelido de “Pirulão”. Promovido aos profissionais em janeiro de 2015, quando os paulistas eram comandados por Tite, fez apenas três partidas com a camisa alvinegra e não balançou as redes. Sua trajetória no Parque São Jorge ficou mais conhecida por um pênalti perdido em decisão da Copa São Paulo de juniores – tentou cobrar com uma “cavadinha”, mas mandou a bola para fora.

    Em janeiro de 2016, Juventus e Empoli fizeram uma espécie de negociação em conjunto para tirar o jogador do Corinthians – o negócio movimentou 2 milhões de euros, e o time paulista, que detinha apenas 5% dos direitos, manteve esse percentual para eventuais transferências futuras.

    Pirulão foi acomodado inicialmente nos profissionais do Empoli, mas não empolgou. De lá migrou para a primavera, espécie de time de juniores, da Juventus. Também não conseguiu bom rendimento.

    Na atual janela de transferências do futebol europeu, os agentes do armador tentaram oferecê-lo a times da Alemanha e da França. A despeito de a Juventus ter concordado com empréstimos gratuitos, nenhuma negociação avançou. Um membro do estafe de Pirulão segue na Europa em busca de soluções para o atleta, mas ainda não encontrou interessados.

    A avaliação que vem do próprio estafe do jogador é que Pirulão queimou etapas demais. Por ter subido precocemente aos profissionais e migrado igualmente cedo para a Europa, não conseguiu completar o processo de formação. Também pesaram nesse processo, evidentemente, a personalidade do próprio atleta e o comportamento de seu entorno.

    AP Photo/Vadim Ghirda

    Com Gerson, problema começou com pai e virou dívida

    Esse contexto também já foi um problema para Gerson. Revelado pelo Fluminense, o meia é outro que chamou atenção logo cedo. No caso dele, porém, pesou muito a participação do pai, Marcos Antonio da Silva, conhecido como Marcão. Mesmo sem ter grande apreço por futebol, o progenitor percebeu que tinha um talento nas mãos e conduziu com mão forte a carreira do filho. Não permitiu, por exemplo, que o armador morasse em Xerém, bairro do município de Duque de Caxias em que estão situadas as categorias de base da equipe tricolor. Largou um emprego de vigilante para administrar a vida do garoto.

    “Falavam que eu iria acabar com a carreira do Gerson, que eu sou dinheirista. Várias vezes me perguntaram quanto o Gerson queria ganhar, mas eu sempre busquei o que é melhor para o meu filho”, disse o pai de Gerson em entrevista ao jornal “Lance!”.

    Em 2015, Marcão chegou a dizer que Gerson seria jogador do Barcelona. A participação do pai no dia a dia do meia gerou um ambiente insustentável com o empresário Jorge Machado, que abandonou o atleta em agosto daquele ano e transformou a questão em pendenga judicial.

    Gerson foi negociado com a Roma em janeiro do ano passado, após 45 jogos e cinco gols no Fluminense. Começou então uma nova polêmica envolvendo Marcão, que trabalhou para que o filho seguisse no Brasil por mais alguns meses – a equipe italiana pretendia emprestá-lo por um semestre, mas queria que essa movimentação acontecesse dentro do continente europeu.

    “As palavras do pai de Gerson me importam pouco porque é um charlatão. Compramos o filho, e não o pai”, respondeu Walter Sabatini, diretor esportivo da Roma, em cerimônia de entrega de um prêmio na cidade italiana.

    Emprestado ao Fluminense em janeiro, Gerson disputou mais 18 partidas no clube que o revelou. A negociação, contudo, gerou um problema interno que o clube ainda tenta contornar.

    Fechada em agosto de 2015, a transferência de Gerson movimentou 16 milhões de euros (R$ 61 milhões em valores da época) a serem pagos em quatro parcelas (uma à vista e três no ano passado). O Fluminense tinha direito a 70% desse montante.

    Dois meses depois do negócio, o Fluminense usou o dinheiro que tinha a receber como garantia para tomar empréstimo de R$ 43 milhões da XXIII Capital, com juros de 0,88% ao mês. Também começou uma discussão com empresários que também detinham parcelas dos direitos do atleta e não receberam suas fatias do negócio.

    Enquanto isso, Gerson segue sem jogar

    Na primeira temporada, Gerson fez apenas 11 partidas pela Roma. Não entra em campo em um jogo oficial desde dezembro de 2016 – participou de amistosos na última pré-temporada.

    “Vim de um futebol diferente, de uma cultura diferente. Sabia que na Itália e na Europa não seria fácil, especialmente no primeiro ano. É um campeonato com jogadores de qualidade e com intensidade totalmente diferente do Brasil. Esperava críticas, estava preparado para isso, mas as críticas me fizeram crescer. Eu me sinto melhor hoje. Tenho crescido e amadurecido”, disse Gerson à TV oficial do clube antes do início da atual temporada.

    A principal questão que o jogador precisou desenvolver na Itália foi a participação. Gerson tem repertório técnico que impressionou a comissão técnica da Roma desde cedo, mas recebeu muitas críticas por se esconder em alguns momentos do jogo e ser inconstante na recomposição.

    Divulgação

    Mattheus também espera sequência em Portugal

    Também é a inconstância uma das marcas da trajetória de Mattheus Oliveira, filho do tetracampeão mundial Bebeto. O armador canhoto tornou-se profissional no Flamengo, time em que havia conquistado a Copa São Paulo de 2011, e chegou a ser titular do time rubro-negro em alguns momentos. Foi emprestado ao Estoril em 2015, com vínculo até o fim do contrato com os brasileiros.

    Mattheus também foi errático no Estoril, mas adicionou itens importantes a seu estilo de jogo. Seguiu sendo um armador de passes refinados e pouco potencial para finalizar os lances, mas conseguiu números expressivos em bolas paradas e se destacou pela versatilidade (foi escalado em pelo menos quatro funções diferentes do meio-campo).

    Em 2017, Mattheus foi negociado com o Sporting Lisboa. Assinou contrato com cláusula rescisória de 60 milhões de euros (R$ 225 milhões) e deu um passo que parecia colocá-lo em um estágio diferente no Velho Continente. O problema: ainda não foi sequer relacionado para uma partida oficial na nova equipe.

    Outros brasileiros também sofrem para emplacar na Europa

    Até pela expectativa que geraram em algum momento de suas carreiras, Matheus Pereira, Gerson e Mattheus Oliveira são atualmente três excelentes exemplos de jogadores brasileiros que têm sofrido para evoluir na Europa. Contudo, estão longe de ser exceção. Há casos como Nathan, outro que vestiu a 10 do Brasil na Base. Negociado com o Chelsea em 2015, o meia forjado pelo Atlético-PR não teve espaço no elenco e acabou emprestado ao Vitesse (Holanda).

    Lucas Piazón e Kenedy são outros jogadores brasileiros incluídos na política do Chelsea de investir em revelações e emprestá-las na Europa para terminar o processo de formação. O atacante formado pelo Fluminense chegou a retornar ao elenco londrino neste ano, mas causou polêmica em pré-temporada na Ásia por ter postado mensagens em redes sociais que foram identificadas como preconceituosas. É possível que seja emprestado novamente.

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