Ele foi rebaixado no Corinthians, largou carreira, mas voltou para brilhar na Champions contra Barcelona

    Desmaiar em campo, ganhar títulos, ser rebaixado, virar ídolo na França e encarar de frente Lionel Messi são algumas das situações que fazem parte do currículo do zagueiro Carlão, 30, revelado no Corinthians. Atualmente no Apoel, do Chipre, ele se prepara para disputar mais uma edição da Uefa Champions League.

    O jogador começou na base do São Paulo, depois passou pela Portuguesa antes de chegar ao terrão do Parque São Jorge com 15 anos. Ele apareceu depois de ser bicampeão da Copa São Paulo de futebol júnior em 2004 e 2005 ao lado de Júlio César, Ronny, Bruno Octávio, Elton, Wilson, Abuda e Bobô.

    “Foi uma geração muito boa, uma das mais fortes. Tínhamos muita qualidade, dificilmente três ou quatro da base vingam [no profissional], mas daquele time quase todos ainda estão jogando. Era um grupo muito bom, de boa convivência”, disse, ao ESPN.com.br.

    Carlão foi alçado no time principal do Corinthians logo após o segundo título da Copinha. Ingressou em um elenco recheado de estrelas, como Tevez, Carlos Alberto, Roger e Mascherano. Eram os “Galácticos”. O time foi campeão do Campeonato Brasileiro, mas o jovem zagueiro não entrou em campo.

    “Você tenta aprender o máximo possível com os caras renomados. Uma vez no treino dividi a bola com o Tevez numa jogada mais dura e ele ficou nervoso. No dia seguinte saiu nos jornais que tínhamos brigado, nada a ver”, disse, aos risos.

    Em 2006, ele atuou poucas vezes pela equipe titular. As oportunidades viriam somente depois da saída da parceira MSI, que levou os astros embora.

    Durante uma partida contra o São Paulo pelo Brasileiro de 2007, Carlão viveu uma situação inusitada dentro do gramado: sofreu um traumatismo craniao e desmaiou após um choque com Richarlyson.

    “Eu não lembrava de nada. Vi pela TV. Acordei uma meia hora depois bem confuso. Não lembrava que tinha jogado nem contra quem. Foi bem esquisito”.

    Ele não viu o gol de Betão que pôs fim ao jejum de quatro anos sem vitórias diante do rival. Mesmo com o resultado histórico, o time amargou o rebaixamento para a Série B.

    “Para todos foi muito complicado. A gente tinha muitos jovens que tinham uma responsabilidade enorme. Acabamos não conseguindo salvar o time e foi aquele baque. Todos esses jogadores tiveram que ter cabeça no lugar para seguirem em frente”.

    Após a queda, o Corinthians passou por um processo de reformulação e o técnico Mano Menezes, contratado em 2008, deu mais oportunidades para Carlão. “Acho que essa descida para segunda divisão foi benéfica porque depois da saída da MSI o clube ficou conturbado administrativamente. O Corinthians se reconstruiu e virou o que é hoje. A estrutura é fantástica e não deve para nenhum grande time da Europa”.

    IDOLATRIA NA FRANÇA

    Após ter uma sequência pela equipe principal do Corinthians, quando atuou de zagueiro, meia e até lateral, ele acabou vendido para o Sochaux no meio de 2008. Na França, virou capitão e ídolo dos torcedores.

    “A mudança foi radical na minha vida. Eu sempre vivi com a família em São Paulo. Depois, estava morando sozinho em um país diferente em que não dominava a língua e o futebol diferente. No começo foi um baque até me adaptar. Depois de seis meses comecei a falar o idioma e acabei virando capitão do time”.

    Mesmo assim, em 2011, Carlão chegou a abandonar a carreira profissional. Durante quatro meses praticamente não saiu de casa e não queria mais saber de treinar. Tinha perdido a motivação com apenas 25 anos.

    “Estava bem fora de campo, mas não sabia o motivo de querer parar. Chegou um momento que precisava de um novo desafio para minha vida. Eu estava jogando como titular. Não foi depressão ou alguma contusão séria. Mesmo assim, o clube foi bem compreensivo comigo”.

    Até que a chegada de um novo técnico mudou tudo e, aos poucos, a confiança voltou. “O Hervé Renard que me fez voltar a ter alegria de jogar, que é o que mais sei fazer. O treinador disse que precisava de mim e que contava comigo. Eu resolvi treinar uma semana como teste, mas foi especial. Ele é um segundo pai para mim e agradeço muito por ter voltado”.

    PAROU MESSI E NEYMAR

    Depois de seis temporadas, ele acertou com o Apoel. Na equipe venceu uma taça do Chipre e duas vezes a Liga Cipriota. Além disso, teve a oportunidade de disputar a fase de grupos da Uefa Champions League na temporada 2014/2015 e enfentar times como Ajax, Paris-Saint Germain e Barcelona.

    “O Sochaux sempre me pedia para ficar, a torcida fez faixas e o clube me ofereceu contrato para ficar como funcionário depois de aposentar. Mas eu precisava de novos desafios e tinha o sonho de disputar uma Champions”, disse.

    Ele jogou tão bem o duleo no Camp Nou contra os catalães que foi único brasileiro a entrar na seleção da Uefa na primeira rodada.

    “Essa partida foi espetacular na minha carreira. Quando teve o sorteio ficaram desesperados (risos). Ao mesmo tempo é um privilégio jogar contra os melhores do mundo. Naquela semana todos falavam que iríamos tomar de sete (risos)”, recordou.

    “A sensação ao entrar lá foi a melhor possível, jogando naquele estádio cheio. Tem dias que o jogo encaixa e para mim foi o que aconteceu”.

    Mesmo com a derrota por 1 a 0, o jogador conseguiu parar Neymar e Lionel Messi. O único gol foi marcado pelo zagueiro Piqué.

    “Teve um cruzamento no primeiro pau que o Messi foi crente que ia fazer o gol, mas eu tirei a bola antes de cabeça. Ele ficou muito bravo, foi bem legal para mim (risos). A repercussão foi enorme porque eu tinha acabado de chegar. Essa partida me ajudou a ter propostas de outros lugares do mundo e até do Brasil”, relatou.

    Já a campanha do Apoel não foi tão boa. A equipe terminou na lanterna do grupo com 1 ponto e foi eliminada.

    Carlão renovou contrato por mais três anos e tem a chance de voltar ao torneio que tanto gosta. O Apoel perdeu para o Rosenberg o jogo de ida por 2 a 1, na Dinamarca, e precisa de uma vitória por 1 a 0 ou de dois gols de diferença para ir até a última fase dos playoffs.

    “A gente quer muito passar de fase. Temos chances de chegar de novo, mas eles têm um bom time e tradição. Mesmo assim, creio que nós temos chances de passar”, finalizou.

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