Salve Jorge, o santo que soma

    Foto: Bruno Teixeira/ Agência Corinthians

    Em meio a mais de 40 mil torcedores, aquela imagem tornou-se constante em alguns cantos da Arena. São Jorge, que é da Capadócia, mas, cada vez mais corinthiano, estava no colar que pulava no pescoço de veias saltadas, na pele, nas mãos do interlocutor, ovacionada pela torcida.

    Todo jogo, Fernando Wanner acende a vela e pede, em oração. Pode ser para a estátua que fica no seu local de trabalho, ou pra aquela que viaja de um lado ao outro, que já absorveu as mais diferentes emoções e aflições.

    Ele acredita que a identificação com o padroeiro vem de outras vidas. Fala isso com convicção mesmo. Convicção de devoto. O torcedor corinthiano e funcionário do Memorial do Clube (e historiador, e artista plástico…) virou um exemplo por lá, de fé e conhecimentos sobre São Jorge. “O Corinthians nos aproximou”, diz. Para ele, todos os dias são dia de Jorge. Em breve, vai chegar Akin. Fernando fez promessa para ser pai. Sua esposa está grávida e o nome de origem africana do bebê significa “homem valente”.  Propositalmente, sinônimo de  “guerreiro”.

     

    Guerreiro,  o termo que liga a fé

    “O meu livro tem: cristão ortodoxo, muçulmano, católico romano, anglicano, candomblecista, umbandista…”, fala o fotógrafo Cesar Fraga. Ele viajou oito países para retratar São Jorge em diferentes culturas. Nas mais de duzentas páginas da obra “Guerreiro”, a história do soldado  é contada por imagens marcantes. “O envolvimento foi tanto que, quando vi, estava no meio do Oriente Médio pedindo a proteção dele”. 


    São Jorge ou Ogum? 

    A palavra é sincretismo. No período colonial, escravos africanos que eram do candomblé não podiam cultuar seus orixás livremente, quando chegaram ao Brasil. A religião oficial do país era o catolicismo. Eles associaram as divindades aos santos católicos, para expressarem sua fé.

    Pai João é filho de Yansã e Ogum.  No centro de umbanda onde ele é presidente, logo acima da porta de entrada, está São Jorge. Uma luz vermelha ilumina o cavalo e seu cavaleiro. “Sempre na dificuldade, independentemente do seu Orixá, todo mundo pede apoio de Ogum”, diz Pai João.

    “Todos nós temos Ogum. Ogum é o caminho, a estrada de cada um”, explica Mâe Carmen, fundadora da casa Ilê Olà Omi Asè Opo Araká.  “As religiões, numa junção, fazem uma cultura de paz. E o mais importante disso tudo, é você ter o poder de falar: eu tenho fé”, ressalta.

    O bispo Dom Luiz Carlos observa mais uma mensagem importante: “Ele experimentou a vitória sobre o mal e, desta forma, testemunha Jesus, aquele que vence todos os males”.

    As histórias e crenças das religiões em que aparece a figura de São Jorge, seja por sincretismo ou não, são bem distintas, mas o conceito comum é nítido: ele sempre assume a forma de lutador, valente, aguerrido.

    A Fé do brasileiro

    Brasileiro não desiste nunca. Pela tradição, somos um povo alegre e lutador. A cara de São Jorge. Do Jorge trabalhador, do Jorge marido, do Jorge Pai, do  Jorge cidadão brasileiro. Ser filho de Jorge é uma inspiração. “A vontade de vencer do meu pai faz todo sentido na vida. Além de lutador, ele é muito família”, diz Bruno Fukumoto, o filho de Jorge Aparecido da Costa.  “Ele me passou a paixão pelo Corinthians. Levo São Jorge no escapulário, é meu padroeiro” , conta Bruno.

     

    Foto: Bruno Teixeira/Agência Corinthians

     

    Jorge é brasileiro e Corinthiano

    Alguns acordes e um batuque de pandeiro: “Não brinca com filho de Jorge, não, não brinca com filho de Ogum”, fala a primeira parte do samba. Quem compôs, em dia de inspiração, foi Juninho Thybau, cantor e devoto. “São Jorge é protetor de quem anda na rua, nos livra da maldade e dos dragões da vida”, filosofa. O músico sentiu necessidade de escrever e homenagear o santo, da maneira mais brasileira possível. Ele define: “São Jorge em uma palavra? Guerreiro”.

    Para o filósofo Luiz Felipe Pondé, o santo que é forte, é também fácil de se estabelecer vínculo. “É uma figura que apoia a imagem do Corinthians como time que continua acreditando,  mesmo que contra tudo e conta todos. Isso é fé” .

    De volta ao início, conclui-se a equação matemática: São Jorge é da Capadócia, mas brasileiro. Mais (+) padroeiro. Mais (+) corajoso. Mais (+) plural. São Jorge Guerreiro é corinthiano, cada vez mais corinthiano.

     

    “Salve Jorge, o santo que soma” é um documentário produzido pela CorinthiansTV. Para assistir, acesse o link:

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